Agorismo e Nazismo: um estudo sobre opostos

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BannerNo episódio Gorilla Experiment de The Big Bang Theory, o Dr. Sheldon Cooper tenta ensinar um pouco de física rudimentar a Penny. Fiel à sua natureza pedante, Sheldon começa seu esboço de história da física mencionando a ágora, de onde tiramos o termo moderno agorismo. Depois do livro An Agorist Primer, de Samuel Edward Konkin III (SEK III), a palavra “ágora” é usada ainda até hoje para descrever  ”mercado aberto”.

Para o agorista moderno, a ágora ou o livre mercado não corrompido constitui o objetivo a ser alcançado; o meio de transição do estatismo atual para a ágora é chamado de “contraeconomia”. Segundo SEK III em seu livro An Agorist Primer, “toda ação humana não-coercitiva cometida em desafio ao estado constitui contraeconomia”. Ele cita alguns exemplos específicos do que se quer dizer por ação não-coercitiva em desafio ao estado:

– Sonegação;
– Evasão de inflação;
– Contrabando;
– Livre produção;
– Produção desregulamentada em pequena escala
– Distribuição ilegal;
– Livre fluxo tanto de força de trabalho (imigração ilegal), quanto de capital através de fronteiras;
– Informação e sigilo informacional;
– E muito mais.

A ideia geral da contra-economia é muito semelhante ao que Robert Neuwirth chama na entrevista Why Black Market Entrepreneurs Matter to the World Economy (Por que empreendedores no mercado negro são importantes para a economia mundial) de Sistema D . Neuwirth diz que:

há uma palavra francesa para alguém que é auto-suficiente ou engenhoso: débrouillard… a economia de rua… l’économie de la débrouillardise – a economia da auto-confiança, ou a economia DIY se quiser. Eu decidi usar este termo – encurtando-o para Sistema D – porque é uma forma menos pejorativa de se referir ao que tem sido chamado tradicionalmente de economia informal ou mercado negro ou até mesmo economia subterrânea. Estou basicamente usando o termo em referência a toda atividade econômica não captada pelo radar do governo. Ou seja, não registrada, não regulamentada, não tributada, mas não completamente criminosa – não incluo tráfico de armas, drogas, seres humanos, ou coisas do tipo. (ênfase minha)

No entanto, a razão pela qual eu quero mencionar o Sistema D é porque ele me ajuda a ilustrar nitidamente que, em última análise, o que está sendo discutido aqui é simplesmente a sobrevivência humana. Esta é uma discussão que, sem ser hiperbólico, toca em questões de vida ou morte. Para tornar este ponto além de qualquer objeção claro como cristal, Neuwirth, em seu livro The Stealth of Nations, menciona como o Sistema D tem ajudado pessoas a sobreviver à crise financeira:

Um estudo de 2009 feito pelo Deutsche Bank, o grande credor comercial alemão, sugeriu que os países europeus que tinham a maior parte da sua economia de forma não-licenciada e não-regulamentada – em outras palavras, países com o mais robusto Sistema D – as pessoas se saíram melhor na crise econômica de 2008 do que povos que vivem em nações centralmente planejadas e bem regulamentados.

Ele ilustra também a questão da sobrevivência com um exemplo da América Latina:

Estudos de países da América Latina têm mostrado que pessoas desesperadas se moveram para o Sistema D procurando sobreviver durante a mais recente crise financeira. Este sistema espontâneo, governado pelo espírito de improvisação organizada, será fundamental para o desenvolvimento das cidades do século XXI. (ênfase minha).

Talvez um dos exemplos mais impressionantes da ideia de contraeconomia em ação é o do que empresários fizeram a fim de contornar as leis de controle de preços da Alemanha nazista. Isso também me dá a oportunidade de trazer à tona uma questão que parece ser negligenciada; entretanto, ela cumpre um papel importante em minar o estabelecimento da soberania estatal. Em uma passagem verdadeiramente brilhante de seu livro The Art of Not Being Governed: An Anarchist History of Upland Southeast Asia, James C. Scott menciona que a mudança de práticas linguísticas é vital para a evasão e prevenção do estado:

Governantes estatais descobriam que é quase impossível implementar uma controlar pessoas que estão constantemente em movimento, que não têm padrão permanente de organização, nem endereço permanente, cuja a liderança é efêmera, cujos padrões de subsistência são flexíveis ​​e evasivos, que têm poucas alianças permanentes, e que são passíveis de​​, ao longo do tempo,  mudar suas práticas linguísticas e sua identidade étnica. E este é justamente o ponto! A organização econômica, política e cultural de tais povos é, em grande parte, uma adaptação estratégica para evitar a incorporação em estruturas estatais. (toda a ênfase é minha)

Com esse prólogo agora fora do caminho, deixe-me chegar a meu ponto principal: o de que o comportamento de alguns empresários (não posso dizer de todos, porque é bastante fácil demonstrar que alguns empresários queriam fascismo ou mesmo o criaram) serve como exemplo perfeito de agoristas evadindo os controles de preços nazistas introduzidos em 1936.

Em seu livro The Vampire Economy: Doing Business under Fascism, Günter Reimann, assim como James C. Scott, enfatiza a importância da mudança permanente – ou subversão da “padronização” – como um método-chave para fugir da vontade do Estado. Conformidade é de fato a carcereira do mundo. Reimann observa que:

fabricantes podem introduzir mudanças em produtos padronizados que resultem em um artigo final mais complicado, com o único fim de permitir que se alegue que o produto final é um “novo artigo”, que não estará sujeito às antigas restrições de preços. O estado impõe mais padronização da produção, a fim de poupar matérias-primas; os produtores devem fazer exatamente o contrário, a fim de defender seus interesses privados. (ênfase minha).

Para fugir ainda mais do sistema de controle de preços do estado, compradores e vendedores arranjariam “contratos combinados” que eram o equivalente a vender recursos escassos por um preço mais elevado, enquanto se “engana” o Estado para que pense que as ordens de preços prescritas estão sendo seguidas. Quero reproduzir a história completa de Reimann sobre como os compradores e vendedores executavam este truque, porque ela ilustra uma maneira real de se parecer “legítimo”, enquanto na verdade se é o completo oposto:

Um camponês foi preso e levado a julgamento por ter vendido várias vezes seu velho cão em conjunto com um porco. Quando um comprador privado de porcos veio a ele, a venda foi encenado de acordo com as regras oficiais. O comprador perguntaria ao camponês: “Quanto é o porco?” O astuto camponês responderia: “Não posso pedir-lhe mais do que o preço oficial. Mas quanto você pagaria por meu cão, que também quero vender?” Então o camponês e o comprador de porcos já não discutiriam o preço do porco, mas apenas o preço do cão. Eles chegariam a um entendimento sobre o preço do cão, e quando um acordo foi alcançado, o comprador conseguiu o porco também. O preço pago pelo porco era bastante correto, estritamente de acordo com as regras, mas o comprador tinha pago um preço alto pelo cão. Depois disso, o comprador, querendo se livrar do cão inútil, soltou-o, e ele correu de volta para seu antigo mestre, para quem era de fato um tesouro.

No final, o camponês nunca realmente vende seu cão, visto que o comprador efetivamente lhe devolve o cão, ao libertá-lo. O comprador recebe o porco, que é o lado oficial da transação, mas o vendedor fica com o preço oficial para o porco, além do preço da venda fantasma do cão, assim, o vendedor recebe um preço acima do estabelecido pelo estado para vender seu porco.

Naturalmente, o estado tentará reprimir tal prestidigitação, uma palavra chique para qualquer comportamento sorrateiro que o estado não consegue perceber. Como se trata da Alemanha nazista, o estado teve uma resposta bastante previsível. Segundo Reimann, ele usou “compras de controle”, a fim de pegar pessoas por audaciosamente contornarem suas regras de preço. O que exatamente eram as “compras de controle” nazistas? Elas consistiam no seguinte:

  • Agentes da polícia secreta;
  • Os agentes da polícia secreta estariam à paisana e se portariam como compradores inofensivos, mas dispostos a oferecer um preço mais elevado que o oficial;
  • Os agentes da polícia secreta tentariam então induzir os empresários a fazer uma transação ilegal com eles.

Para mim isso soa como uma operação policial de drogas, mas para itens tão prosaicos quanto uma venda de porcos![1]

A fim de evitarem serem pegos, a ideia de mudar suas práticas linguísticas entra em jogo entre os envolvidos no comércio. Reimann assinala explicitamente que ao aplicar agorismo, é preciso aprender a falar um novo idioma:

Para discutir transações comerciais ilegais de uma maneira que pareça legal, empresários em países fascistas aprendem a falar a língua dos experientes adversários subversivos do regime. Muitas vezes eles têm dúvidas a respeito da ”confiabilidade” de um potencial comprador, e, portanto, falam em termos que são inocentes e cujos significados podem ser interpretado de várias manerias. (ênfase minha).

Por fim, penso eu que uma maneira possível de “vender” o agorismo para pessoas que atualmente não são agoristas é mostrar que suas ideias fundamentais têm uma história longa e honrosa. Tentei ilustrar isso usando tanto um exemplo recente quanto um histórico. No exemplo recente, ou seja, na atual crise financeira, o agorismo e o Sistema D ajudaram pessoas desesperadas em vários continentes a ganhar a vida. O agorismo e o Sistema D, portanto, estão ajudando pessoas a sobreviver. A comparação e contraste é gritante: a gananciosa classe dominante causou o problema por meio de suas políticas monetárias de banco central, mas os agoristas forneceram a solução, que está funcionando na prática. O exemplo nazista demonstra que o agorismo é uma ferramenta para minar um regime totalitário. Novamente, o agorismo pode se posicionar ao lado da humanidade contra alguns de seus inimigos mais monstruosos. E da maneira em que nosso comprador de porco e vendedor fizeram: por meio de uma troca negociada em que ambas as partes chegaram a um acordo aceitável. Em outras palavras, a troca voluntária subverte o totalitarismo mais uma vez.

[1] No original há um trocadilho intraduzível para o português, reproduzimos o trecho aqui em consideração ao leitor letrado em inglês:

“To me this sounds like a drug sting operation but for such prosaic items as selling pigs! A pig sting! (That has double entendre written all over it.)” (Nota do tradutor)

// Tradução de Vinicius Freire. Revisão de Ivanildo Terceiro, clique aqui para ler o artigo original no C4SS

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